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Dados do produto:
Apresentação
Ao entregar o presente número de Estudos de Religião às vésperas do Natal, não podemos deixar de lembrar alguns dos acontecimentos que marcaram o ano de 2003. No mundo, destacamos a guerra do Iraque e suas implicações econômicas, políticas e religiosas. Encerra-se o ano com a captura do "demônio" Saddam Hussein. No Brasil, vivemos um ano do novo governo, culminando na aprovação das primeiras grandes reformas e na expulsão dos "radicais do PT".
Apesar da diversidade dos ensaios coletados na revista, reconhecemos diversas marcas do contexto mais amplo onde todos estamos inseridos. O artigo de Joanildo Burity chama a nossa atenção para um novo modo de fazer política social, que já existe há algum tempo, mas tomou recentemente uma extensão inédita: a participação das organizações religiosas em amplas redes e parcerias, que reúnem setores da administração pública e diversos atores individuais e coletivos da sociedade civil, em particular as chamadas ONGs, de todo tipo e tamanho. Esse processo acompanha a pluralização do campo religioso no Brasil, com particular ênfase no crescimento numérico dos evangélicos e sua controversa visibilidade pública. Importantes implicações estão à vista, tanto para o modo como o Estado vê a presença das organizações religiosas na sociedade, quanto para as tomadas de posição das mesmas frente às políticas públicas.
A formação das redes e parcerias é possibilitada pelo surgimento de um novo tipo de movimento religioso, repercutindo nas novas formas assumidas pelos movimentos já estabelecidos. No contexto atual, a dicotomia entre o sagrado e o secular ou entre o tradicional e o moderno, não pode mais ser encarada de modo tão rígido. É o que mostra o estudo de Marcelo Ayres Camurça, que assinala diversas misturas sutis dos dois pólos, a partir de uma releitura dos "clássicos" da ciência social da religião, em particular Max Weber.
O texto escrito a quatro mãos por Sérgio Junqueira e Luiz Alberto Alves situa a questão (político-religiosa) do Ensino Religioso nas escolas públicas no contexto de pluralismo religioso cada vez mais explícito no qual vivemos. Em conseqüência, "o Ensino Religioso passou a fazer parte da base nacional comum, referindo-se ao conjunto de conteúdos mínimos das áreas de conhecimento articulados aos aspectos da vida cidadã".
É também no contexto do pluralismo que deve ser repensada a figura do pastor protestante. Foi traduzido especialmente para a nossa revista um capítulo da obra de Jean-Paul Willaime sobre "a precariedade protestante". O modelo do profissional da religião, que se expressa nas funções de pregação, ensino e administração, está se esgotando. Parece estarmos rumando para o surgimento de um clérigo transconfessional, enquanto o modelo tradicional de pastor experimenta um processo de esvaziamento favorável a outros tipos de especialistas na sociedade moderna.
As reflexões de Lauri Wirth são de cunho mais metodológico. Trata-se de confrontar as duas principais tendências atuais nos estudos de religião: as ciências empíricas da religião preconizam o distanciamento crítico do fenômeno estudado; as abordagens fenomenológicas e hermenêuticas priorizam uma "outra racionalidade", não conceitual, suscetível de apreender a compreensão que os sujeitos, as instituições e as culturas religiosas têm de si mesmas. Reconhecendo a complementaridade dos métodos, o autor sugere aproximações plurais do fenômeno religioso. A historiografia das expressões religiosas não letradas - predominantes na América Latina - não pode dispensar o testemunho oral, isto é, a memória como fonte de investigação. Daí a importância dos métodos da história oral, que permitem chegar ao sagrado enquanto constitutivo da identidade religiosa do sujeito. Esse último torna-se, assim, interlocutor privilegiado do próprio pesquisador.
Depois de mostrar diversas facetas do pluralismo religioso e cultural na atualidade, realçaremos agora a necessária dimensão religiosa dos conflitos individuais, sociais e políticos. No conflito Estados Unidos - Iraque, ficou claro que se tratava de radical e exclusiva oposição entre duas formas de messianismo: o destino manifesto dos descendentes dos "pais peregrinos" e a guerra santa dos filhos do profeta Maomé.
De fato, religião e violência andaram muitas vezes de mãos dadas. Paulo de Góes oferece um bom exemplo tirado da história do cristianismo: o caso dos circumcilliones no tempo de S. Agostinho. O bispo de Hipona precisou usar toda a sua energia e sua força de persuasão para pacificar o grupo fanático dos donatistas. Desse modo, teve que colocar-se do lado da ordem estabelecida na luta contra rebeldes sociais e religiosos, que lançavam mão do terrorismo e do suicídio disfarçado de martírio para alcançar os seus objetivos.
A análise exegética de Milton Schwantes traz o messianismo profético de Isaías. O texto faz parte de um comentário literal, dedicado desta vez aos quatro primeiros versículos do capítulo oitavo. Anuncia-se, por meio de ações simbólicas, uma catástrofe de guerra iminente, na qual os inimigos de Jerusalém perecerão: Damasco e Samaria. O poder militar cederá lugar à fragilidade das crianças, as armas serão vencidas pelos símbolos e palavras proféticas. O autor mostra que Isaías usa a própria biografia para transmitir a mensagem divina.
A utopia milenarista de William Miller perdeu o seu aspecto apocalíptico - possível fonte de violência - e tornou-se uma ideologia pacífica na forma da Igreja Adventista do Sétimo Dia, graças a diversas releituras e reinterpretações da profecia pelos sucessores do fundador do movimento. Ao mostrar que a expectativa da volta próxima de Cristo foi substituída por uma esperança relacionada com a esfera celestial, o autor do texto, Haller Schunemann, realiza um excelente exercício metodológico, quando aplica ao fenômeno religioso a polaridade utopia - ideologia elaborada por Karl Mannheim.
Num certo sentido, a liturgia cristã seguiu um caminho parecido, à medida que distanciou-se dos formulários judaicos, vinculados à tradição e trajetória histórica messiânica do povo judeu. A partir do século terceiro, a liturgia cristã conhece um engessamento institucional e passa a responder aos interesses do poder - político e religioso - estabelecido. Uma certa liberdade volta após a Reforma do século XVI. Como resgate da história da salvação, a liturgia deve manifestar sempre a presença do Senhor da história em qualquer ambiente religioso, social e político, isto é: na vida e na caminhada do povo. É o que poderemos ler no artigo de Geoval Jacinto da Silva.
Enfim, o artigo de James Farris nos reconduz aos conflitos morais individuais e coletivos, focalizando a sua dimensão religiosa. A religião faz parte integral deste contexto devido à sua ênfase na relação entre a moralidade, os símbolos e os sistemas de significado definitivo. Por esse motivo, a teoria do conflito moral não pode prescindir do estudo da religião, sempre associada aos sistemas morais, econômicos, sociais e políticos que têm significado definitivo para a vida dos crentes. Sendo fonte de sentido definitivo ou absoluto, a religião dá uma dimensão de radicalidade aos conflitos morais, sejam eles individuais, grupais ou internacionais. Assim, do ponto de vista psicossocial, a religião deverá ser levada em conta na busca de solução aos conflitos que têm conotação moral.
Não podemos concluir essa apresentação sem manifestar a nossa gratidão aos tradutores dos resumos em língua inglesa, desde que eles existem em nossa revista: os professores Archibald Woodruff e James Farris. A eles vai um especial "muito obrigado".
Etienne Alfred Higuet
Editor do número 25
S U M Á R I O
ARTIGOS
Religião e redes nas políticas sociais: legitimando a participação das organizações religiosas / Religion and networks in social policy making: legitimating the presence of religious organizations
Joanildo A. Burity
Novos movimentos religiosos: entre o secular e o sagrado / New religious movements: between the secular and the sacred
Marcelo Ayres Camurça
O ensino religioso em um contexto pluralista / Religious education in a pluralistic set-up
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira e Luiz Alberto Souza Alves
Análise da formação de uma ideologia religiosa: o caso da Igreja Adventista do Sétimo Dia / Analyses of the formation of a religious ideology: The case of the Seventh Day Adventist Church
Haller E. S. Schunemann
Religião e violência: o caso dos circumcilliones no tempo de Santo Agostinho / Religion and Violence: The Case of the Circumcilliones in the Time of St. Augustine
Paulo de Góes
O pastor protestante como tipo específico de clérigo / The protestant pastor as a specific type of cleric
Jean-Paul Willaime
A inter-relação histórica e teológica da liturgia judaica e cristã / The Historical and Theological Interrelation between Jewish and Christian Liturgies
Geoval Jacinto da Silva
A memória religiosa como fonte de investigação historiográfica / Religious Memory as a Source for Historiographic Investigation
Lauri Emilio Wirth
Conflito moral e religião: universos morais, valores definitivos e teorias de conflito / Moral and religious conflict: moral universes, definitive values and theories of conflict
James Reaves Farris
Armas não armam tendas de paz: observações sobre Isaías 8,1-4 / A Military Setup does not Set Up Tents of Peace: Observations on Isaiah 8,1-4
Milton Schwantes
R E S E N H A
Cavalcante, Rodrigo; Chevitarese, André. Jesus. São Paulo: Abril, 2003.
Pedro Paulo A. Funari
Ao entregar o presente número de Estudos de Religião às vésperas do Natal, não podemos deixar de lembrar alguns dos acontecimentos que marcaram o ano de 2003. No mundo, destacamos a guerra do Iraque e suas implicações econômicas, políticas e religiosas. Encerra-se o ano com a captura do "demônio" Saddam Hussein. No Brasil, vivemos um ano do novo governo, culminando na aprovação das primeiras grandes reformas e na expulsão dos "radicais do PT".
Apesar da diversidade dos ensaios coletados na revista, reconhecemos diversas marcas do contexto mais amplo onde todos estamos inseridos. O artigo de Joanildo Burity chama a nossa atenção para um novo modo de fazer política social, que já existe há algum tempo, mas tomou recentemente uma extensão inédita: a participação das organizações religiosas em amplas redes e parcerias, que reúnem setores da administração pública e diversos atores individuais e coletivos da sociedade civil, em particular as chamadas ONGs, de todo tipo e tamanho. Esse processo acompanha a pluralização do campo religioso no Brasil, com particular ênfase no crescimento numérico dos evangélicos e sua controversa visibilidade pública. Importantes implicações estão à vista, tanto para o modo como o Estado vê a presença das organizações religiosas na sociedade, quanto para as tomadas de posição das mesmas frente às políticas públicas.
A formação das redes e parcerias é possibilitada pelo surgimento de um novo tipo de movimento religioso, repercutindo nas novas formas assumidas pelos movimentos já estabelecidos. No contexto atual, a dicotomia entre o sagrado e o secular ou entre o tradicional e o moderno, não pode mais ser encarada de modo tão rígido. É o que mostra o estudo de Marcelo Ayres Camurça, que assinala diversas misturas sutis dos dois pólos, a partir de uma releitura dos "clássicos" da ciência social da religião, em particular Max Weber.
O texto escrito a quatro mãos por Sérgio Junqueira e Luiz Alberto Alves situa a questão (político-religiosa) do Ensino Religioso nas escolas públicas no contexto de pluralismo religioso cada vez mais explícito no qual vivemos. Em conseqüência, "o Ensino Religioso passou a fazer parte da base nacional comum, referindo-se ao conjunto de conteúdos mínimos das áreas de conhecimento articulados aos aspectos da vida cidadã".
É também no contexto do pluralismo que deve ser repensada a figura do pastor protestante. Foi traduzido especialmente para a nossa revista um capítulo da obra de Jean-Paul Willaime sobre "a precariedade protestante". O modelo do profissional da religião, que se expressa nas funções de pregação, ensino e administração, está se esgotando. Parece estarmos rumando para o surgimento de um clérigo transconfessional, enquanto o modelo tradicional de pastor experimenta um processo de esvaziamento favorável a outros tipos de especialistas na sociedade moderna.
As reflexões de Lauri Wirth são de cunho mais metodológico. Trata-se de confrontar as duas principais tendências atuais nos estudos de religião: as ciências empíricas da religião preconizam o distanciamento crítico do fenômeno estudado; as abordagens fenomenológicas e hermenêuticas priorizam uma "outra racionalidade", não conceitual, suscetível de apreender a compreensão que os sujeitos, as instituições e as culturas religiosas têm de si mesmas. Reconhecendo a complementaridade dos métodos, o autor sugere aproximações plurais do fenômeno religioso. A historiografia das expressões religiosas não letradas - predominantes na América Latina - não pode dispensar o testemunho oral, isto é, a memória como fonte de investigação. Daí a importância dos métodos da história oral, que permitem chegar ao sagrado enquanto constitutivo da identidade religiosa do sujeito. Esse último torna-se, assim, interlocutor privilegiado do próprio pesquisador.
Depois de mostrar diversas facetas do pluralismo religioso e cultural na atualidade, realçaremos agora a necessária dimensão religiosa dos conflitos individuais, sociais e políticos. No conflito Estados Unidos - Iraque, ficou claro que se tratava de radical e exclusiva oposição entre duas formas de messianismo: o destino manifesto dos descendentes dos "pais peregrinos" e a guerra santa dos filhos do profeta Maomé.
De fato, religião e violência andaram muitas vezes de mãos dadas. Paulo de Góes oferece um bom exemplo tirado da história do cristianismo: o caso dos circumcilliones no tempo de S. Agostinho. O bispo de Hipona precisou usar toda a sua energia e sua força de persuasão para pacificar o grupo fanático dos donatistas. Desse modo, teve que colocar-se do lado da ordem estabelecida na luta contra rebeldes sociais e religiosos, que lançavam mão do terrorismo e do suicídio disfarçado de martírio para alcançar os seus objetivos.
A análise exegética de Milton Schwantes traz o messianismo profético de Isaías. O texto faz parte de um comentário literal, dedicado desta vez aos quatro primeiros versículos do capítulo oitavo. Anuncia-se, por meio de ações simbólicas, uma catástrofe de guerra iminente, na qual os inimigos de Jerusalém perecerão: Damasco e Samaria. O poder militar cederá lugar à fragilidade das crianças, as armas serão vencidas pelos símbolos e palavras proféticas. O autor mostra que Isaías usa a própria biografia para transmitir a mensagem divina.
A utopia milenarista de William Miller perdeu o seu aspecto apocalíptico - possível fonte de violência - e tornou-se uma ideologia pacífica na forma da Igreja Adventista do Sétimo Dia, graças a diversas releituras e reinterpretações da profecia pelos sucessores do fundador do movimento. Ao mostrar que a expectativa da volta próxima de Cristo foi substituída por uma esperança relacionada com a esfera celestial, o autor do texto, Haller Schunemann, realiza um excelente exercício metodológico, quando aplica ao fenômeno religioso a polaridade utopia - ideologia elaborada por Karl Mannheim.
Num certo sentido, a liturgia cristã seguiu um caminho parecido, à medida que distanciou-se dos formulários judaicos, vinculados à tradição e trajetória histórica messiânica do povo judeu. A partir do século terceiro, a liturgia cristã conhece um engessamento institucional e passa a responder aos interesses do poder - político e religioso - estabelecido. Uma certa liberdade volta após a Reforma do século XVI. Como resgate da história da salvação, a liturgia deve manifestar sempre a presença do Senhor da história em qualquer ambiente religioso, social e político, isto é: na vida e na caminhada do povo. É o que poderemos ler no artigo de Geoval Jacinto da Silva.
Enfim, o artigo de James Farris nos reconduz aos conflitos morais individuais e coletivos, focalizando a sua dimensão religiosa. A religião faz parte integral deste contexto devido à sua ênfase na relação entre a moralidade, os símbolos e os sistemas de significado definitivo. Por esse motivo, a teoria do conflito moral não pode prescindir do estudo da religião, sempre associada aos sistemas morais, econômicos, sociais e políticos que têm significado definitivo para a vida dos crentes. Sendo fonte de sentido definitivo ou absoluto, a religião dá uma dimensão de radicalidade aos conflitos morais, sejam eles individuais, grupais ou internacionais. Assim, do ponto de vista psicossocial, a religião deverá ser levada em conta na busca de solução aos conflitos que têm conotação moral.
Não podemos concluir essa apresentação sem manifestar a nossa gratidão aos tradutores dos resumos em língua inglesa, desde que eles existem em nossa revista: os professores Archibald Woodruff e James Farris. A eles vai um especial "muito obrigado".
Etienne Alfred Higuet
Editor do número 25
S U M Á R I O
ARTIGOS
Religião e redes nas políticas sociais: legitimando a participação das organizações religiosas / Religion and networks in social policy making: legitimating the presence of religious organizations
Joanildo A. Burity
Novos movimentos religiosos: entre o secular e o sagrado / New religious movements: between the secular and the sacred
Marcelo Ayres Camurça
O ensino religioso em um contexto pluralista / Religious education in a pluralistic set-up
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira e Luiz Alberto Souza Alves
Análise da formação de uma ideologia religiosa: o caso da Igreja Adventista do Sétimo Dia / Analyses of the formation of a religious ideology: The case of the Seventh Day Adventist Church
Haller E. S. Schunemann
Religião e violência: o caso dos circumcilliones no tempo de Santo Agostinho / Religion and Violence: The Case of the Circumcilliones in the Time of St. Augustine
Paulo de Góes
O pastor protestante como tipo específico de clérigo / The protestant pastor as a specific type of cleric
Jean-Paul Willaime
A inter-relação histórica e teológica da liturgia judaica e cristã / The Historical and Theological Interrelation between Jewish and Christian Liturgies
Geoval Jacinto da Silva
A memória religiosa como fonte de investigação historiográfica / Religious Memory as a Source for Historiographic Investigation
Lauri Emilio Wirth
Conflito moral e religião: universos morais, valores definitivos e teorias de conflito / Moral and religious conflict: moral universes, definitive values and theories of conflict
James Reaves Farris
Armas não armam tendas de paz: observações sobre Isaías 8,1-4 / A Military Setup does not Set Up Tents of Peace: Observations on Isaiah 8,1-4
Milton Schwantes
R E S E N H A
Cavalcante, Rodrigo; Chevitarese, André. Jesus. São Paulo: Abril, 2003.
Pedro Paulo A. Funari





